Pouco utilizado em Portugal, o NITROX ainda é alvo de grandes dúvidas e desconfianças por parte dos mergulhadores e instrutores nacionais, pouco receptivos às inovações mais “radicais”. Por outro lado, o panorama internacional mostra-se bem diferente, com o Nitrox a assumir um lugar de destaque em toda a indústria do mergulho.
Que andamos sempre desfasados em relação ao exterior, todos sabemos, o que por vezes não nos lembramos é que isso pode constituir uma grande vantagem “táctica”. Senão vejamos: O mergulho recreativo com Nitrox começou nos Estados Unidos há mais de uma década; milhões de mergulhos sem problemas já foram efectuados só por os norte-americanos; no resto do mundo mergulha-se com Nitrox também há algum tempo – ninguém se queixou! Conclusão: com base em exaustiva e contínua experimentação, é seguro afirmar que os portugueses podem, efectivamente, mergulhar com Nitrox em segurança!!!
Agora que já nos vangloriámos com a nossa esperteza lusitana, podemos então começar por esclarecer algumas dúvidas e alguns boatos menos informados que nos possam ter chegado aos ouvidos.
A principal ideia que normalmente surge é a de que o Nitrox serve para mergulhar mais fundo – muito pelo contrário, o limite operacional máximo ronda os 40 metros; também se fala que é preciso ser um mergulhador muito experiente para fazer o curso e para mergulhar com Nitrox – qualquer mergulhador que cumpra as regras do mergulho recreativo com ar e que saiba controlar a flutuabilidade é perfeitamente capaz de se adaptar aos poucos conhecimentos suplementares que o mergulho com Nitrox exige; o boato mais comum é que o equipamento que se utiliza para o mergulho com ar não pode ser utilizado para o Nitrox – a verdade é que pode. Não acredite em tudo que ouve e prossiga com a leitura …
Afinal, o que é o Nitrox? Ou antes, o que é o Ar? Mistura de gases, essencialmente de oxigénio e de azoto, na aproximada proporção de 21% e 79%, respectivamente. O oxigénio é essencial à vida, metabolizado pelo organismo produz energia, não causa doença de descompressão; o azoto é um gás inerte, serve apenas de diluente para o oxigénio, não sendo metabolizado, causa doença de descompressão. Então e o Nitrox? Tem os mesmos componentes que o ar mas em proporções diferentes, isto é, mais oxigénio e menos azoto. Porquê? Porque em mergulho o azoto pode ser sinónimo de problemas – menos azoto, menos problemas!
Assim, as vantagens de respirar Nitrox são consequência de respirar menos azoto. Os tempos de fundo sem incorrer em patamares de descompressão aumentam, os intervalos de superfície entre mergulhos podem ser encurtados, o risco de acidente de descompressão é menor, diminui ligeiramente a narcose e reduz a fadiga pós mergulho. Existem várias misturas de Nitrox, dependendo da proporção que se queira dar entre o oxigénio e o azoto, por exemplo, um Nitrox 36 refere-se a uma mistura com 36% de oxigénio e 64% de azoto. Os mais usados são o Nitrox 28, Nitrox 32, Nitrox 36 e Nitrox 40.
O reverso da medalha no Nitrox é que, com o aumento da percentagem do oxigénio, novos limites vão surgir, essencialmente limites de profundidade. Isto é, quanto mais enriquecida em oxigénio fôr a mistura, menor será a profundidade a que se pode ir, devido ao aumento da Pressão Parcial e consequente risco de intoxicação por excesso de oxigénio. No entanto, estes limites são apenas mais uns a somar a todos aqueles que se aprenderam no curso básico, normalmente associados ao azoto, e que agora aparecem associados também ao oxigénio.
Os mergulhadores com factores fisiológicos desfavoráveis à eliminação de azoto, como a idade, obesidade, desidratação, problemas circulatórios, fadiga, má forma física, etc., podem optar por mergulhar com Nitrox mas cumprir os tempos da tabela de descompressão (ou computador) a ar. Na realidade estão a criar uma grande margem de segurança, pois o azoto saturado no organismo será inferior ao calculado pela tabela ou computador.
Mas vamos a alguns exemplos práticos (usando as tabelas Buhlmann): 1) Mergulho em naufrágio a 30 metros de profundidade – respirando ar, o limite de tempo de fundo seria de 17 minutos; com um Nitrox adequado seria de 25 minutos, concluindo, mais tempo para ver o naufrágio, sem incorrer em patamares de descompressão; 2) Num dia de férias, algures num destino longínquo e paradisíaco, estão programados 3 mergulhos, um a 35 m, outro a 30 m, e o ultimo a 20 m, com intervalos de superfície de 3 horas entre cada um deles – resultado: com ar, assumindo que nunca se ultrapassaria os tempos da “curva de segurança” (sem patamares obrigatórios), o último mergulho só durava 21 minutos; com várias misturas de Nitrox adequados para cada mergulho, o ultimo poderia durar 56 minutos! Mesmo encurtando para 1 hora o intervalo de superfície, o resultado ainda seria o mesmo! E com maior segurança do que se mergulhasse com ar!
Em relação à questão da compatibilidade do equipamento, é importante esclarecer que usando misturas Nitrox até 40% de oxigénio, ou seja Nitrox 40, o material (o regulador, o colete, a garrafa) não necessita de qualquer especificação suplementar, podendo ser usado normalmente para o ar ou para o Nitrox. Quando se lida com percentagens superiores de oxigénio, então o caso muda de figura e já é necessário ter material específico.
Concluindo, as vantagens do Nitrox são bem evidentes. As eventuais desvantagens, como o preço dos enchimentos (ligeiramente mais caros), ou o custo do curso, podem ou não ser justificadas pelo aumento de segurança, pelo aumento do tempo de “diversão” junto daquele naufrágio a 30 metros, ou por os três mergulhos diários com tempos de fundo dignos daquele local que poderemos não voltar a visitar. Se as vantagens superam as desvantagens tudo depende do ponto de vista do utilizador!
In revista “Mundo Submerso”, Jan/1997