Nos mergulhos de mar é frequente encontrarem-se cavernas suficientemente grandes para permitirem ao mergulhador aventurar-se no seu interior. A curiosidade e o espirito aventureiro são razão suficiente para levar muitos mergulhadores a correr riscos que, possivelmente, nem sabem que correm. É que o mergulho em caverna envolve muita técnica, equipamento e alguns conhecimentos teóricos; quem não está preparado para o fazer pode pagar caro a aventura.
Geralmente as cavernas são locais onde existe variada fauna e flora marinhas, daí a grande curiosidade que despertam na maioria dos mergulhadores. Especialmente quem evoluiu para o mergulho através da caça-submarina, não resiste a dar uma espreitadela lá dentro. Outros, por outro lado, apenas gostam de explorar o desconhecido e avançam pelo escuro. Felizmente, grande parte das vezes o buraco até é largo, acaba poucos metros à frente e não esconde perigos de maior. O pior é que existem alguns que, por variadíssimas razões, constituem verdadeiras armadilhas mortais, mesmo para os mergulhadores mais experientes.
Em termos de mergulho, caverna é a parte inicial de uma gruta até onde penetra a luz solar. Elas podem formar-se em rocha calcária (por exemplo, a zona da Serra da Arrábida), em rocha basáltica (tubos de lava formados em ilhas vulcânicas, por exemplo, os Açores), em recifes de coral e em qualquer outro tipo de rocha por acção da erosão marinha ou colapso de falésias.
Uma das principais causas da morte de mergulhadores que se aventuram nas cavernas calcárias é a falta de visibilidade no regresso, principalmente devido ao levantamento de sedimento do chão, fazendo com que se perca a orientação e o sitio por onde se entrou. Com a falta de luz a desorientação aumenta e se houver mais do que uma galeria, a situação complica-se ainda mais. Outro dos grandes perigos das cavernas calcárias marinhas é a ondulação ou a vaga de fundo, pois o movimento da água provoca fortes correntes que empurram o mergulhador para dentro de cavidades onde ele pode não conseguir sair.
A presença de pedras e blocos de rocha em equilíbrio instável são uma preocupação constante para os mergulhadores de cavernas; as perturbações causadas pelas bolhas de ar são o suficiente para causar um desmoronamento. Por ultimo, também é preciso tomar cuidado com fauna potencialmente perigosa que pode habitar o local.
Nos tubos de lava, além dos perigos das cavernas calcárias, acrescenta-se o facto de o basalto ser negro, o que provoca a absorção quase total da luz. Podem existir fracturas recentes com bordos cortantes e podem surgir correntes de maré fortes com inversão de sentido.
As cavernas de coral são geralmente pouco extensas, com muitas aberturas no tecto. As paredes são cobertas de vida marinha, algumas perigosas ao tacto. Também aqui as marés podem afectar as condições do mergulho.
Para minimizar estes riscos e mergulhar com relativa segurança em cavernas marinhas é necessário equipamento adequado e uma boa técnica de mergulho.
Quanto ao equipamento, é obrigatório possuir uma boa iluminação principal e levar pelo menos duas lanternas de reserva, sem nunca esquecer que não se pode perder por completo a luz solar. Um carreto é essencial para que o mergulhador instale um fio a partir da entrada da caverna, de forma a poder sair em condições de visibilidade reduzida ou saber qual o trajecto correcto numa complexidade de galerias. É conveniente levar alguma forma de fonte de ar alternativa que não apenas o octopus, como uma pequena garrafa (pony) e um regulador acoplados à garrafa principal. Levar sempre duas ou três facas montadas na parte superior do corpo na eventualidade de se ficar embaraçado no fio.
Além de possuir o equipamento adequado é muito importante saber algumas técnicas especificas para este tipo de mergulho. Por exemplo, saber nadar com as barbatanas evitando levantar sedimento do fundo ou conseguir seguir o fio sem ver nada, ou ainda saber os procedimentos a tomar quando se está perdido. Tudo isto requer algum treino e conhecimentos teóricos. Uma regra de ouro no mergulho em caverna é uma adequada gestão do ar, pois ela é crucial quando se entra em espaços confinados e sem acesso directo à superfície; geralmente utiliza-se a regra dos terços, ou seja, respira-se um terço do ar na ida outro no regresso e o último terço é reservado para emergências.
Em Portugal quase não existem casos conhecidos de fatalidades com mergulhadores em cavernas mas o mesmo já não acontece em Espanha, onde as mortes são anuais. A maioria das vitimas são instrutores de mergulho recreativo que, por excesso de confiança, se aventuram em meios para os quais não têm formação. Portanto, antes de voltar a entrar em cavernas é melhor procurar saber tudo o que deve saber e praticar junto de especialistas. É que a sorte não dura para sempre…
Pedro Lage in Revista Mundo Submerso - Junho 1998