Quase dez anos depois de o Mergulho Técnico ter oficialmente passado as fronteiras portuguesas (de fora para dentro, bem entendido!), afinal como se desenvolveu o lado TEK da actividade, quantos são os Tugas Tekkies, como são vistos pelos colegas REC e, o mais importante, o que raio andam eles a fazer com aquelas garrafas todas?!
Parte I
Que sorte! Estar no lugar certo na altura certa. Assistir ao nascimento de um projecto inovador e ainda por cima, ser convidado a participar! Esta é a história de uma década de evolução, contada por quem a viveu.
Estamos em 1995 e uma nova vertente do mergulho de lazer parece assumir cada vez mais protagonismo no panorama internacional. Existem escolas que estão a ensinar estilos diferentes de mergulho, utilizam misturas gasosas “exóticas” e, imagine-se, ultrapassam e questionam limites e regras estabelecidos para o mergulho recreativo de então. Que sacrilégio! Pior ainda, existe uma revista que divulga estas “actividades” pecaminosas!
As ondas de rebeldia chegam a Portugal e nasce a primeira escola de Mergulho Técnico nacional. E que maremoto gerou! Meia dúzia de instrutores começam a dar cursos de Nitrox, então a mistura maldita, a outra escassa meia dúzia de alunos Tugas. A primeira geração de mergulhadores Tekkies “formados”, estava a nascer, ensinada por pré-tekkies, auto-didactas de sucesso.
O Nitrox era fabricado na pequena sede da escola, com um compressor que demorava séculos a encher as garrafas mas que rapidamente saturava os ouvidos. As misturas nem sempre saíam exactamente como o esperado, especialmente as mais ricas em oxigénio. Era época de aprendizagens. Rapidamente começámos a ser notados pela restante comunidade de mergulhadores e as perguntas vinham invariavelmente em todos os locais que mergulhávamos: “Nitrox? Que é isso?”, “Serve para ir mais fundo?”, “Não é perigoso?”. Claro que as reacções dos “entendidos” da época não tardaram a chegar: “Muito perigoso!”, “Inconscientes!”, “O Nitrox não deve ser usado no mergulho amador!”. Pois!...
Os primeiros cursos de Mergulho Profundo (60m) e de Mergulho em Gruta surgiram em 1996 e a pequena comunidade Tekkie portuguesa começou a evoluir. E como nos divertíamos! Durante a semana discutíamos os planos, fazíamos as nossas próprias misturas e “bricolávamos” algum equipamento. Depois, no desejado fim-de-semana, era altura de mergulhar, umas vezes no mar outras vezes em grutas, vivíamos novas experiências e explorávamos novos locais. Os nossos companheiros “recreativos” divertiam-se à grande com a quantidade de equipamento que levávamos: “Eh pá, pareces uma árvore de Natal!” ou “Vais lá ficar o dia todo, ou quê?”. Não era fácil arranjar quem nos levasse a mergulhar no mar, a nossa sorte era que alguns do grupo possuíam um barco e, quando conseguíamos conjugar disponibilidades, lá íamos nós. A atitude e a disciplina com que todos encarávamos cada mergulho, permitiu-nos ter uma taxa de acidentes de quase 0%, tendo havido apenas um caso de DCS ligeiro nas centenas de imersões profundas realizadas.
A aprendizagem era lenta mas progressiva, embora as fontes de informação fossem escassas. Existiam alguns livros e manuais escritos pelos pioneiros do Mergulho Técnico (Bret Gilliam, Tom Mount, Rob Palmer, Sheck Exley), que devorávamos vezes sem conta. A Aquacorps, a revista que baptizou e retirou o véu aos Tekkies, era a única publicação regular que divulgava as actividades e as tecnologias mais notórias da época. Alguma informação começava a chegar através da Internet. Poucos de nós tiveram a oportunidade de enriquecer conhecimentos junto de Tekkies de outros países, fazendo cursos em França e em Espanha, leccionados por alguns dos “gurus” do Mergulho Técnico internacional. Participámos numa expedição luso-francesa de espeleologia subaquática na Península do Yucatan, no México, onde aprendemos novas técnicas e alargámos os nossos horizontes.
O equipamento disponível era limitado, apenas a loja da escola fornecia 2 ou 3 marcas que comercializavam artigos especializados como os coletes tipo asa, os reguladores limpos para oxigénio, as garrafas para descompressão, as iluminações, os carretos, ou as jon-lines. Não havia grande margem para escolha.
Até inícios do séc. XXI, a comunidade Tekkie activa no nosso país resumia-se praticamente a uma dezena de pessoas. Algumas delas tinham evoluído o suficiente para chegarem ao nível de instrução do Mergulho Técnico, depois de também terem passado alguns anos como instrutores de mergulho recreativo. Na mesma altura surgiam os primeiros cursos de circuitos semi-fechados e de Trimix.
Fundou-se uma associação de exploradores subaquáticos (SPEXS) com o objectivo principal de conjugar esforços e obter os meios necessários para o desenvolvimento do Mergulho Técnico, por exemplo, com a criação de novos locais de mergulho através do afundamento de navios ou através da pesquisa de naufrágios já existentes. Mas a falta de fundos, o desinteresse das entidades oficiais contactadas e a própria legislação nacional de mergulho em vigor, contribuíram para algum desânimo e consequente dispersão das pessoas envolvidas. Melhores dias virão.
Entretanto, a notoriedade da primeira geração de Tugas Tekkies e o imparável crescimento da actividade a nível mundial, faz finalmente despertar o interesse dos mergulhadores nacionais e o Mergulho Técnico entra na “moda” em Portugal. A segunda geração está prestes a nascer!
Parte II
O parto foi repentino. De um ano para o outro iniciaram a sua formação Tekkie quase o dobro dos mergulhadores que até então se tinham formado, nos 6-7 anos anteriores. Chamemos-lhe o TEK Boom do Séc. XXI !
As organizações internacionais de mergulho recreativo, que inicialmente rejeitaram e condenaram a utilização das novas tecnologias e a expansão de fronteiras subaquáticas, aparecem com os seus próprios programas de formação em Mergulho Técnico. Simultaneamente, as principais marcas de material de mergulho mundial também se apercebem do nascimento de um novo mercado, começando a desenvolver e a produzir em massa o equipamento que os primeiros Tekkies, provavelmente, há muito já manufacturavam nas suas garagens. Para o bem e também para o mal, a “comercialização” chega ao mundo do Mergulho Técnico e a oferta, no campo da formação e do equipamento, assume agora níveis sem precedentes.
A escassez de informação sobre o Mergulho Técnico também é coisa do passado. Livros, manuais, revistas, artigos, “sites” e fóruns na Internet, satisfazem quase toda a curiosidade dos mais inquiridores. Esta abundância de informação, especialmente a que navega pela Internet, deve, no entanto, ser analisada com o devido cuidado pois existem demasiados “treinadores de bancada” com “tácticas” e estudos algo duvidosos. Por outro lado, é importante frisar que a formação teórica não deve nunca ser dissociada da formação prática, que deverá ser obtida junto de um instrutor experiente, caso contrário corre-se o risco de se cair na imagem do Tekkie virtual, perito em discutir qualquer assunto mas um autêntico acidente em potencial na água.
A procura de um bom instrutor assume também uma importância extrema, independentemente da escola ou organização pretendida, pois é ele que define a qualidade de qualquer curso. No Mergulho Técnico, muito mais do que no mergulho recreativo, é a experiência pessoal do instrutor, a vivência obtida nos seus próprios mergulhos “técnicos”, que se torna fundamental na altura da transmissão de informação para o aluno. O aconselhamento nas configurações do equipamento, a atitude com que se deve encarar cada mergulho, os pequenos “truques do oficio” que ajudam a prevenir acidentes, e até os eventuais erros cometidos, são exemplos de informação que só pode ser transmitida por quem teve a sua quota parte de experiências vividas, tal como se passa na descendência familiar. Sem esta vivência nunca se poderá ser um bom instrutor de Mergulho Técnico.
Os instrutores da primeira geração têm então a seu cargo a educação dos novos Tekkies, que entretanto não deixaram de desenvolver o seu próprio “Generation Gap”. As diferenças podem ser abismais nalguns e mais subtis noutros.
A principal diferença está na atitude de quem se inscreve no primeiro curso de Mergulho Técnico, ou seja, a razão que leva um mergulhador REC a enveredar por uma formação TEK. Os “caça-cartões”, por exemplo, são uma espécie nova, que praticamente não existia na primeira geração Tekkie. O seu intuito é apenas ter mais um cartão para mostrar aos companheiros e poder afirmar a sua formação “superior”. Aí está um dos males da “comercialização”. Outros mergulhadores, contudo, seguem as “pisadas” dos seus antecessores e vêm à procura de novos conhecimentos e novos desafios. Mas também nestes existem diferenças, pois o nível de formação prática e teórica exigida nos actuais cursos de mergulho recreativo é bastante inferior ao que era exigido quando os primeiros Tekkies iniciaram a sua formação básica. Isto não significa, de forma alguma, que os mergulhadores que iniciam agora a sua formação sejam menos capazes, apenas faz com que se encare a estrutura dos primeiros níveis da formação TEK de forma diferente. Este pode até ser um dos benefícios da referida “comercialização”, pois a evolução dentro do Mergulho Técnico passa a ser mais progressiva, reflectindo e acompanhando o caminho seguido pelo mergulho recreativo.
Actualmente, podemos estimar em mais de uma centena o número de mergulhadores portugueses que participaram em algum curso de formação em Mergulho Técnico desde 1995. No entanto, apenas se mantêm “tecnicamente” activos, cerca de três dezenas, radicados principalmente na região centro do país mas existindo também no norte, sul e ilhas.
Por terras lusitanas parece terminada alguma apatia dos principais centros de mergulho e as estações de enchimento Nitrox começam finalmente a surgir, havendo já uma razoável oferta deste serviço espalhada pelo país. A dificuldade mantém-se nos enchimentos de Trimix, mas provavelmente só daqui a mais 10 anos esse problema esteja resolvido! Ou talvez não...
Ultrapassada a questão dos enchimentos nitrox, mantém-se praticamente inalterado o problema da diversificação dos locais de mergulho e especialmente do transporte até eles. Salvo raras e louváveis excepções, não existem saídas específicas para Mergulho Técnico nos centros de mergulho portugueses. A posse ou a contratação de embarcações particulares continua a ser quase a única opção que os Tugas Tekkies têm para poder aceder a novos locais de mergulho. Parte da responsabilidade desta situação pode ser atribuída à já “caquéctica” legislação nacional, que limita fortemente os mergulhos abaixo dos 40 metros. Outra quota parte tem a ver com a dimensão relativamente reduzida do mercado e com as condições de mar raramente favoráveis que a nossa costa atlântica oferece.
Apesar de tudo os locais de mergulho explorados pelos Tugas Tekkies espalham-se por todo o território nacional. Incluem naufrágios entre a cota dos 50m e 70m de profundidade, em Peniche e Leixões, baixas e paredes que vão desde os 40m até aos 100m, em Sesimbra, Fonte da Telha, Cabo Espichel, Berlengas, Farilhões e Porto Santo, e algumas grutas, no interior centro, que continuam a ser descobertas e exploradas. A estas profundidades existe fauna e flora muito característica, diferente da que pode ser encontrada a cotas inferiores, incluindo, para espanto de muitos, corais e peixes de cores garridas, que quase fazem lembrar os mares tropicais.
Os circuitos semi-fechados e fechados são a novidade do momento, com um número crescente de unidades a aparecerem no mundo Tekkie português. A formação nestes sistemas é cada vez mais procurada e embora o custo ainda seja elevado, existem já alguns privilegiados que mergulham exclusivamente com estes “brinquedos”. As vantagens são consideráveis, desde a autonomia aos benefícios fisiológicos, passando pela furtividade com que se passeia pelo mundo subaquático, tornando-o verdadeiramente silencioso. O futuro próximo certamente verá uma evolução explosiva destes sistemas, uma redução do seu custo e uma utilização cada vez mais generalizada.
O que parecia impossível de acontecer ainda há pouco mais de uma década é agora realidade: o nitrox saiu da esfera exclusiva do Mergulho Técnico e avança, imparável, no mergulho recreativo (a tal ponto que já se fala em substituir o ar logo nos cursos iniciais). Isto obrigou a uma nova definição de Mergulho Técnico, menos abrangente, que procura manter algum distanciamento entre as duas vertentes do mergulho de lazer. A próxima redefinição vai acontecer quando o mergulho recreativo reclamar uma parte do mundo dos Rebreathers, o que não deve tardar muito. Nessa altura teremos cursos iniciais de mergulho a serem leccionados nestes sistemas, colocando o escafandro de circuito aberto na prateleira da História.
Por cá o Mergulho Técnico continuará a evoluir, sempre um pouco atrasado face ao exterior mas assumindo um protagonismo crescente no panorama do mergulho de lazer nacional. Os Tugas Tekkies serão cada vez mais e vão, com certeza, precisar de mais espaço no barco para colocar TODAS aquelas garrafas. Os colegas REC que nos desculpem mas viemos para ficar! Mais vale juntarem-se ao grupo!
Pedro Lage
in Planeta d´Água - Março 2005