Agora que é consensual afirmar que o mergulho profundo com ar está ultrapassado, a controvérsia mantém-se quando se tenta definir profundo. Ao mesmo tempo, o mergulho com Trimix parece ter cada vez mais adeptos, nem sempre detentores do nível de experiência necessário para lidar com as exigências das profundidades. Com estas questões em mente, o que reservará o futuro próximo para esta vertente do Mergulho Técnico?
Já se passaram alguns anos desde que escrevi o artigo “Vamos Nitrox-Ar?”. Nessa altura, o Nitrox era ainda ignorado pelas principais agências de mergulho recreativo internacionais e pela maioria dos mergulhadores nacionais. O texto visava enaltecer as vantagens dessa mistura e incentivar o seu uso em águas portuguesas. Olhando para trás, parece que foi profecia: hoje o Nitrox já não precisa de “incentivos” e o artigo não teria o mesmo impacto.
Os tempos agora são outros, a revista diferente e a mistura gasosa também. Mais, o teor deste artigo será bem distinto, já que desta vez não irei enaltecer as vantagens do Trimix, nem incentivar o seu uso. Limitar-me-ei apenas a lançar algumas questões, que poderão ser controversas.
Quando em finais de 1994 assistia à aula de fisiologia do meu curso básico de mergulho, o instrutor esforçava-se por transmitir a uma plateia meia adormecida os conceitos de toxicidade do azoto (narcose) e do oxigénio. Os perigos do mergulho profundo eram detalhadamente explicados e o limite máximo admissível para o mergulho com ar, fortemente sublinhado: “Nunca ultrapassem os 76 metros!”
Claro que na altura nenhum de nós pensava sequer em ultrapassar os 3 metros da piscina, mas este número “mágico” ficou bem marcado nas nossas cabeças! A “magia” deste valor residia no facto de ser a esta profundidade que se atingia a Pressão Parcial do oxigénio (PO2) de 1.8 bar, que era considerada na altura como o ponto a partir do qual o oxigénio se tornava tóxico, provocando convulsões e levando à morte por afogamento. A narcose era também um fenómeno a ter em consideração e os relatos da “Ivresse des profondeurs” (bebedeira das profundidades) do Cousteau eram suficientes para assustar qualquer um. No entanto, o que realmente limitava a profundidade do mergulho com ar era o factor oxigénio, sendo que tudo o resto poderia ser, digamos, “controlado”.
No ano seguinte, por mero acaso de circunstância, fui levado a inscrever-me no primeiro curso de Nitrox realizado em Portugal. Logo na primeira aula, surpresa das surpresas: o limite do mergulho com ar já só era 66m!
- O que aconteceu?- perguntei, intrigado. Aconteceu que afinal, segundo novos estudos realizados, a PO2 admissível tinha passado para os 1,6 bar!
- Bonito, agora é que eles avisam! Olha se eu tivesse ido aos 76m! – pensei, sorrindo.
Seja como for aprendi uma importante lição sobre fisiologia do mergulho. O que é verdade hoje pode não o ser amanhã.
Entretanto, a nível internacional, a grande polémica daquela altura incidia sobre os chamados mergulhos “Deep Air”. Os mergulhos com ar na cota dos 70/80 metros (especialmente em naufrágios) eram considerados normais para a maioria dos mergulhadores técnicos, o que era compreensível, tendo em conta os limites fisiológicos teoricamente aceites naqueles tempos. A designação Deep Air atribuía-se quando as PO2 ultrapassavam esses limites. Tais mergulhos começavam a ser criticados por alguns membros da comunidade TEK contemporânea. A condenação baseava-se no facto de ter surgido uma alternativa que tornava estas imersões mais seguras: o TRIMIX.
Os cursos de Trimix estavam a nascer e apesar da resistência inicial de alguns, a mistura de oxigénio, hélio e azoto, começou lentamente a tornar-se o cocktail preferido para quem queria ir além dos 66 metros. Era o princípio do fim do Deep Air.
Em 1997 decorreu o primeiro curso de mergulho profundo com ar em Portugal, sob a alçada de uma das principais agências de Mergulho Técnico internacionais. O limite da certificação era então de 60 metros, embora estivesse mais ou menos implícito que se poderia ir até aos 66 metros sem problemas. As limitações da altura baseavam-se mais nos problemas que advinham da toxicidade do oxigénio do que propriamente na narcose, razão pela qual se poderia descer às 7.6 atmosferas sem grandes riscos fisiológicos. A narcose era para ser controlada, através de progressiva ambientação, com mergulhos sucessivamente mais profundos (desde os 30 metros) permitindo um aumento do nível de conforto físico e psicológico de cada mergulhador. Basicamente foi assim que decorreu a evolução da maioria dos mergulhadores técnicos nos anos 90, com os poucos mas bem activos tekkies nacionais a fazerem centenas de imersões na cota entre os 40m e 66m durante os finais do séc. XX. O limite “mágico” dos 66m e 1.6 bar de PO2 nunca foi deliberadamente ultrapassado, do mesmo modo que nunca houve qualquer tipo de incidente digno de registo. A prática dos Deep Air, na sua verdadeira concepção, nunca chegou aos tekkies portugueses.
Os grandes benefícios da introdução do hélio na mistura respiratória provêm do simples facto de este vir substituir uma parte do azoto e uma parte do oxigénio. Com a primeira substituição, vem a redução da narcose, com a segunda vem a eliminação dos riscos de toxicidade do oxigénio.
O TRIMIX surgiu então como solução milagrosa para aqueles que queriam ir mais fundo ou que precisavam de ter a cabeça mais “limpa” para executarem mergulhos complexos, normalmente dentro de naufrágios ou grutas. Os primeiros cursos de Trimix foram leccionados a quem já tinha uma boa dose de experiência em mergulhos profundos com ar e geralmente a reacção era muito boa. Alguns começaram-lhe a chamar o “voodoo gas”, pois fazia desaparecer a narcose como que por feitiçaria. Outros, no entanto, eram mais cautelosos e alertavam para a aparente “facilidade” com que se mergulhava a 70/80 metros, pois o factor narcose, segundo eles, servia para manter o raciocínio em estado de alerta, impedindo-os de “baixarem a guarda” sobre o controlo da imersão. Este ponto pode ser controverso, mas a verdade é que a noção de profundidade era geralmente associada ao nível de narcose que se sentia. Quando o Trimix veio interferir nesse “sensor”, tornando mergulhos a 80m equivalentes em termos narcóticos a estarmos a 30m, o grau de apreensão com que se encara esse tipo de mergulhos corre o risco de baixar, abrindo caminho a possíveis desleixos no controlo do tempo de fundo, do consumo, etc. Daí até o mergulhador se ver em sérios problemas pode ser um passo, pois na realidade ele está fundo.
Os principais inconvenientes do hélio derivam essencialmente da sua fina estrutura molecular. Menor densidade significa mais rápida absorção pelo organismo, por um lado, e mais rápida dessaturação por outro. No entanto, o balanço entre as duas pode resultar em tempos de descompressão maiores quando comparados com os do ar. Além disso, o hélio tende a sair de dissolução e passar para o estado gasoso mais facilmente do que o azoto, tornando o Trimix uma mistura menos tolerante a erros de descompressão (como falha de patamares ou velocidades de subidas inadequadas). Existem outros problemas, mais complexos, como o Sindroma Nervoso das Altas Pressões (HPNS) ou a contra-difusão isobárica, mas que geralmente só constituem motivos de preocupação para mergulhos realmente fundos (abaixo dos 100m).
Além dos inconvenientes fisiológicos, a complexidade dos mergulhos profundos com Trimix em termos de equipamento, planeamento e logística, aliada ao elevado custo do hélio tornam esta vertente do Mergulho Técnico uma opção sujeita a séria ponderação.
Com todo este preâmbulo em mente, voltemos às questões iniciais: afinal qual é a actual definição de profundo no mergulho com ar e a partir de que profundidade e momento na evolução de um mergulhador TEK, se deverá começar a pensar na utilização de Trimix (em circuito aberto)?
Actualmente, entre as principais agências internacionais de mergulho técnico existem vários limites de profundidade para a utilização do ar: desde os meros 30m até aos 55m, sendo que a maioria aponta para os 50m. Ficam ressalvados os casos de mergulho em grutas e de penetração em naufrágios, onde o limite aconselhado baixa para os 40m. Mais fundo que isto e o ar deixa de ser a melhor opção, fazendo-nos entrar no mundo do Trimix.
Para aproveitar os benefícios do Trimix em segurança o desempenho de um mergulhador na água não pode ser inferior ao excelente. Infelizmente, não há margem para erros, para controlos de flutuabilidade deficientes ou para posturas e comportamentos típicos de quem ainda não está verdadeiramente em “harmonia” com o mundo subaquático. Só com boa formação, algumas centenas de mergulhos evolutivos e a atitude correcta se consegue chegar à excelência necessária para lidar com o Trimix. Por outras palavras: Não há atalhos! E aqui pode residir o principal problema num futuro próximo do mergulho profundo.
Actualmente os standards de algumas agências internacionais de mergulho permitem progressões demasiado rápidas até ao nível de Trimix. Os candidatos deparam-se com a possibilidade de ingressarem nos cursos demasiado cedo na sua “carreira”, sem terem atingido a experiência necessária para tal. Juntando alguma atitude mais comercial de alguns instrutores e a vontade, cada vez mais exacerbada, de pertencer à “elite” do Mergulho Técnico e o destino está traçado: mergulhadores inexperientes com “licença” para ir demasiado fundo. Esperemos que o futuro desafie o resultado lógico desta equação...
In Planeta d´Água - Maio 2005