Será o Mergulho Técnico uma vertente do mergulho amador difícil de atingir? Qual será o melhor percurso a tomar na formação? Qual o ritmo ideal na progressão? Como distribuir da melhor forma os custos com o equipamento? Como escolher os instrutores?
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Na versão curta do artigo as respostas seriam simples: Não; Perguntem ao instrutor; Lento; Ao longo de vários anos; Com senso comum. Mas como assim o artigo só ocupava 1/5 de página, aqui vai a versão mais longa...
O Mergulho Técnico veio abrir novas fronteiras ao mergulho amador, dando-lhe novos limites de profundidade, novos ambientes subaquáticos (grutas, interiores de naufrágios, por exemplo), novas misturas respiratórias (nitrox, trimix) e novos aparelhos respiratórios (circuitos semi-fechados e fechados). Conseguir explorar essas fronteiras não será certamente mais difícil do que foi limpar a máscara naquela primeira aula de piscina do curso básico. Apenas é preciso manter a mesma determinação, a mesma vontade de aprender e mostrar algum espírito aventureiro. Será para todos? Óbvio que não. Mas também nem todos conseguem fazer o pino e assobiar ao mesmo tempo, pois não?! (linda comparação...).
A curiosidade pelo Mergulho Técnico pode começar a surgir logo no curso básico, especialmente se o instrutor estiver envolvido nessa vertente. Mas nesta fase ainda há muito que aprender e antes de enveredar pela formação técnica existe um percurso evolutivo dentro do mergulho recreativo que não deve ser descurado. Os caminhos apenas se podem começar a cruzar quando se atinge um nível médio de aquaticidade e destreza, fruto de um bom número de mergulhos efectuados. Acompanhem-me numa sugestão para uma evolução bem estruturada:
1º Ano – O ano do curso básico ou, se se é logo mordido pelo bichinho do mergulho, o chamado ano da “desgraça”! Nada será como dantes e é melhor que a (o) namorada(o)/esposa(o) se junte no mesmo barco ou então terá de se habituar à(o) nova(o) “amante” do companheiro. Claro que pode sempre surgir um pequeno contratempo, o divórcio, mas nada que atrapalhe mais que uns 2 ou 3 fins-de-semana!
Após o curso inicial o ideal é fazer uns dez mergulhinhos, depois inscrever-se num curso avançado (tipo Adv. Open Water) e de seguida iniciar-se no Nitrox. A meta será chegar ao fim do ano com cerca de 50 mergulhos, distribuídos até à cota dos 30m. Em termos de equipamento terá de investir logo num fato (talvez um semi-seco 7mm), barbatanas, máscara, luvas, botas, cinto e uma lanterna pequena, e distribuir pelo resto do ano a compra de um bom regulador, de um colete tipo asa (ou um "backplate" de aço) e de um computador que tenha as funções de nitrox e de profundímetro (mais tarde veremos porquê). O investimento será elevado mas ninguém disse que o mergulho era uma actividade barata, especialmente com a vertente técnica no horizonte!
2º Ano – Este será o ano da consolidação, do aperfeiçoamento no mergulho recreativo e da descoberta do mergulho técnico em 2 vertentes possíveis. Também pode ser o ano da busca por parceira(o) de mergulho e não só, especialmente se no ano anterior houve aquele contratempo já mencionado!
Que tal começar com um curso de Socorrismo? Nunca se sabe quando podemos ser confrontados com a necessidade de efectuar compressões cardíacas, respiração boca-a-boca e todos os primeiros socorros necessários a vítimas de pré-afogamento, por isso mais vale tratar desse curso já. Depois há que saber aplica-lo aos cenários de mergulho e nada melhor que um curso de Mergulhador Socorrista (ou Rescue Diver) para aprender todos os procedimentos a seguir em caso de emergência. Entretanto pode ir fazendo mais uns 25 mergulhos.
Agora chegou a altura de espreitar o Mergulho Técnico e hoje em dia existem 2 pontos de partida possíveis: a) continuar no circuito aberto e tirar os cursos de Nitrox Avançado e Mergulho com Descompressão; b) enveredar pelos circuitos fechados e semi-fechados, começando talvez pelos semi-fechados. Na primeira alternativa vai aprender a planear e executar mergulhos até aos 45m e com patamares de descompressão obrigatórios, feitos com misturas de nitrox mais elevadas. Se optar pelos circuitos semi-fechados não poderá avançar já para mergulhos desse género, mas começará a perceber o modo de funcionamento dos Rebreathers e a desfrutar desde logo das grandes vantagens operacionais e fisiológicas que eles proporcionam. É uma decisão difícil e se estiver muito indeciso pode sempre optar por seguir os dois caminhos em paralelo. Talvez seja preciso ir assaltar o banco mais próximo, mas adiante...
Outra vertente do Mergulho Técnico que pode despertar a curiosidade e ser iniciada nesta altura é o mergulho em Caverna. Neste curso de iniciação irá visitar cavernas simples e acessíveis, sem nunca perder a luz solar e sem entrar em espaços apertados. Aprende-se algumas técnicas importantes, como regras de gestão de ar, estilos de natação com barbatanas, alguma geologia, lidar com o fio-de-ariane, os perigos e as principais regras de segurança, etc.
Em qualquer dos 3 casos tente fazer pelo menos outros 25 mergulhos no nível da certificação obtida.
O equipamento a adquirir nesta fase inclui uma garrafa principal de 15 litros, ou um Bi de 12 litros com "manifold" (ligação entre as duas garrafas), e outra para descompressão de 7 litros em alumínio, um regulador limpo e compatível com oxigénio, uma mangueira com cerca de 2m para o regulador principal, bóia de patamar, carreto, placa de escrita e outros pequenos acessórios que o instrutor lhe irá aconselhar. Se optou pelos Rebreathers a questão torna-se um pouco mais séria, especialmente se o assalto ao banco não foi bem sucedido! É que uma máquina dessas ainda custa alguns euritos, embora a tendência do mercado seja para baixar o preço e para aumentar o nº de modelos disponíveis. No entanto, nesta fase de iniciação, pode sempre tentar aluga-los através do seu instrutor ou em cada vez mais centros de mergulho espalhados pelo mundo. Finalmente se optou pelas cavernas, além do carreto e de dois instrumentos de corte, é lógico que precisa de iluminações, duas no mínimo, e já agora opte pelas novas lanternas de LEDS que têm grande autonomia e luz muito clara.
3º Ano – È este o ano em que poderá começar a explorar as novas fronteiras oferecidas pelo Mergulho Técnico. Mas antes ainda há mais uma especialização importante: A Administração de Oxigénio. Neste curso irá aprender a administrar oxigénio a mergulhadores acidentados e combinará com tudo o que aprendeu no Socorrismo e no Mergulhador Socorrista do ano anterior.
Se optou pelo circuito aberto o passo seguinte é inscrever-se no curso de Mergulho Profundo ou no Trimix Básico. O primeiro permite mergulhar até aos 55m utilizando ar e nitrox para descompressão e o segundo introduz a utilização de hélio na mistura de fundo e permite ir até aos 60m. Talvez o melhor seja optar pelo ar e deixar o trimix para depois, quanto mais não seja pelo preço que terá de pagar pelo hélio e pela dificuldade em arranjar quem faça os enchimentos. Com qualquer destes cursos fica habilitado a explorar locais de mergulho que não estão acessíveis ao mergulhador recreativo e que podem ser verdadeiras surpresas.
Se decidiu apostar nos Rebreathers, e se já praticou com os semi-fechados, está na altura de escolher um modelo de circuito fechado, compra-lo e avançar para a formação. A dificuldade pode estar na escolha, pois já começam a aparecer muitas máquinas disponíveis no mercado. Ao preço que qualquer delas é comercializado, o melhor é investigar bem todas as suas características antes de escolher a que melhor se adapta ao tipo de mergulhos que pretende efectuar. Apesar de não ser obrigatório passar pela formação em circuito semi-fechado, os conhecimentos e a experiência aí adquiridos vão ajuda-lo nesta fase, pois já tem alguma noção do que está a procurar.
Finalmente, se gostou do curso de Mergulho em Caverna, o passo seguinte é a Introdução ao Mergulho em Gruta, onde aprenderá tudo o que necessita para aventurar-se em grutas mais complexas mas ainda com algumas limitações.
Em qualquer das opções está a entrar verdadeiramente no mundo do Mergulho Técnico e o nível de risco das imersões aumentou consideravelmente. A partir daqui a evolução deverá ser lenta, bem pensada e sem atalhos. Não pense sequer em continuar sem ter feito pelo menos mais 50 mergulhos ao nível de qualquer uma das disciplinas, mas mais importante que isso é saber avaliar as suas próprias capacidades e ir tentando adquirir um determinado grau de “conforto” nas profundidades e ambientes mergulhados, demore os mergulhos que demorar.
Em termos de equipamento, não falando dos Rebreathers, terá de comprar a bi de 12 litros (se não a comprou anteriormente), outro regulador principal, uma garrafa de 11 litros de aluminio para descompressão, um computador que trabalhe com várias misturas gasosas (o antigo serve para profundímetro de backup), uma iluminação principal de grande potência e autonomia (com a tecnologia HID ou LED e bateria em separado), um arnês e uma asa (ou um backplate) com boa capacidade de elevação e um fato seco, entre outros pequenos acessórios. Com tudo isto já começa a ter uma boa quantidade de “brinquedos”, não é?! E o melhor é que pode usa-los todos ao mesmo tempo!
4º ou 5ºAno – Bem vindo ao ano da consagração! Está a chegar ao topo da carreira de Mergulhador Técnico e as aventuras mais excitantes podem estar a apenas alguns mergulhos de distância. Por esta altura deve ter o número de mergulhos suficientes para se sentir em “harmonia” com o mundo subaquático, dominar perfeitamente todas as técnicas (flutuabilidade, lançamento de bóias de patamar, manuseamento do carreto, planeamento de mergulho, etc.) e, o mais importante, pensar que NÃO é o melhor mergulhador da sua rua e arredores! Ainda há, e haverá sempre, muito que aprender...
E pode começar pelo Trimix Avançado. Mergulhos que podem ir até aos 100m, com várias misturas descompressivas, muito equipamento, muito planeamento e muita logística são algumas das coisas que o esperam neste curso. Também o podem esperar naufrágios que antes estavam inacessíveis, paredes infindáveis e locais virgens de mergulho. Parece divertido, não?! Pois, mas também é o mais perigoso que pode haver! Portanto, não se inscreva neste curso de ânimo leve, especialmente se apenas procura mais um cartão.
Se seguiu a vertente dos Rebreathers também pode agora avançar para a formação em Trimix. Aqui, para além da “harmonia” e proficiência das técnicas acima faladas há que juntar o perfeito domínio da máquina, que inclui conhecer meticulosamente o seu modo de funcionamento, saber identificar e controlar falhas e saber executar os procedimentos de emergência. Só uma relação muito íntima entre mergulhador e máquina permite um obter um nível de confiança suficiente para se poder aventurar em profundidade e isso demora algum tempo a conseguir. Portanto, também nesta vertente a evolução deve ser lenta e bem consolidada. (PS: “íntima” não significa que tenha de levar o Rebreather para a cama! Embora até conheça alguns casos!...)
Continuando na formação de gruta, ainda lhe falta o último curso, aquele que irá permitir mergulhar sem qualquer tipo de limitações dentro de qualquer tipo de cavidade. Aqui o risco também é elevado e as motivações que levam uma pessoa a inscrever-se têm que ser bem analisadas, não devendo haver lugar para curiosos e “caça-cartões”. O critério final deve ficar por conta de um instrutor consciente.
Infelizmente a compra de “brinquedos” (caros) ainda não acabou, faltando um computador de trimix, outra garrafa de 11 litros em alumínio para descompressão, uma garrafa de 1 litro para insuflar o fato seco, outro regulador para descompressão e mais outra série de pequenos acessórios. E nunca pense que já tem tudo, pois com o tempo verá que isso é pura utopia!
Toda esta evolução também poderia ser feita num menor espaço de tempo, se se conseguir mergulhar mais vezes por ano, mas é importante lembrar que não é só com mergulhos e formação que se evolui. Aprende-se muito com a convivência entre mergulhadores, com a leitura de livros, com a análise e retrospecção dos nossos próprios mergulhos, e toda essa informação demora tempo a consolidar. Por outras palavras, fazer 200 mergulhos e 10 cursos num ano não é o mesmo que distribui-los por uma série de anos, e a mensagem será a de não ter pressa de evoluir e deixar-se ir calmamente na onda.
Só ao fim de alguns anos é que pode começar a considerar-se Mergulhador Técnico, seja lá o que isso fôr! Mas nunca dê por concluída a busca por formação ou informação. A tecnologia e o conhecimento científico estão sempre em evolução e será sempre do seu interesse manter-se actualizado.
Quanto a escolher instrutores, faço-lhe uma simples questão: Se fosse tirar o brevet de piloto escolheria um instrutor que só tivesse voado num simulador? Claro que na aviação seria impossível alguém chegar a instrutor sem ter horas de voo suficientes no modelo de avião que ensina (espero!), mas infelizmente no mergulho isso definitivamente pode acontecer. Não são poucos os casos de instrutores que adquiriram esse grau de forma académica, sem nunca terem sido mergulhadores activos na disciplina que pretendem “ensinar”. Como é possível transmitirem a experiência de algo que apenas leram nos manuais e nos standards? É por essa razão, especialmente no mergulho técnico, que é importantíssimo averiguar o historial do instrutor, tentar saber como evoluiu, que tipo de mergulhos fez, se ele próprio continua a praticar e a manter-se actualizado, etc. E o facto de poder ser um excelente instrutor de mergulho recreativo não significa que seja um bom instrutor de mergulho técnico, basta que nunca tenha sido um mergulhador técnico activo. Investigue e use o bom senso antes de escolher, pela sua saúde! (literalmente).
Finalmente, o autor quer deixar claro que as opiniões acima descritas são pessoais e que não se responsabiliza por nada que possa acontecer a quem decida (sabe-se lá porque carga de água!) seguir estas sugestões, com especial ênfase nos divórcios, assaltos a bancos, fetiches com Rebreathers e agressões a instrutores de voo mal formados! Bem-haja!
In revista Planeta D’Água – Set/05