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Exploração Subaquática da Gruta da Pena
Mergulho técnico
Antes de mais, admito já que o termo "exploração" não será o mais adequado para definir a actividade que por lá desenvolvemos faz alguns anos. Uma verdadeira exploração espeleológica só acontece quando se descobrem locais virgens,locais onde realmente nunca ninguém tenha estado antes (tipo Star Trek mesmo!) e esta gruta, situada no maciço calcário estremenho, já tinha sido explorada muito antes de eu sequer ter nascido. Existe, no entanto, uma pequena diferença: ela foi explorada no seu período seco, quando o nível freático está abaixo da quota média da gruta, ou seja no Verão. Ninguém se tinha aventurado muito na altura em que ela está totalmente submersa (provavelmente a altura mais interessante!), o que acontece sempre que os Invernos são moderadamente chuvosos.

Os meus primeiros mergulhos na Pena foram em 1996, ano de grandes cheias por todo o país. O polje daquela zona encheu até às bordas das casas, subindo bem acima das copas das muitas árvores lá existentes. Uma paisagem intrigante.

 

Nesses mergulhos iniciais fui levado pelo meu instrutor, João Neves, e pouco mais fiz do que limitar-me a segui-lo e ajudá-lo de quando em vez a fazer as amarrações do fio-de-ariane. Levava um bi de 18 litros cheio com Nitrox (inovador para a época), umas asas emprestadas, um capacete e iluminações emprestadas e estava enfiado num friorento fato húmido onde só a adrenalina me mantinha aquecido perante os 13º graus da água.

 O mergulho inicia-se num poço artificial, com o fundo a 18m de profundidade, só depois se entrando verdadeiramente na gruta, numa galeria ampla com algumas estalactites e escorrências de calcite a cintilar. A água era cristalina, a visibilidade apenas limitada pela potência das nossas luzes. Poucos metros à frente encontra-se uma grossa coluna, fruto da junção de uma estalagmite a uma estalactite, sítio ideal para fazer mais uma amarração do fio. Daí em diante a profundidade vai diminuindo suavemente com a galeria a progredir num túnel com cerca de 5m de diâmetro. No chão começa a desenvolver-se um pequeno vale, que se vai tornando cada vez mais pronunciado à medida que avançamos e rapidamente se torna grande o suficiente para caber um mergulhador. É possível escolher entre nadar junto ao tecto e aproveitar os 3m de largura da galeria ou progredir junto ao chão, por entre as paredes mais apertadas (1m) do vale. A “ausência” de gravidade tem destas vantagens e a sensação de voar naquelas águas invisíveis é textualmente indescritível. A cerca de 100m da entrada, a galeria encolhe e surge uma pequena restrição, facilmente transponível depois de alguma prática. A gruta prossegue com a mesma morfologia por outros 100m, diminuindo de profundidade mas aumentando em altura, até parecer acabar num beco sem saída. Ao olhar para cima reparo que a galeria continua fora de água e emerjo. Realmente existe ar, mas antes de tirar o regulador da boca, levanto a mão acima da superfície e olho para o computador: 3m de profundidade - a galeria está pressurizada! Não convém respirar aquele ar pois pode conter níveis elevados de dióxido de carbono, fruto de matéria orgânica em decomposição. Só posso dar uns gritos de satisfação e voltar a inspirar do regulador! Que mergulho espectacular!

 

            Ao iniciar o caminho de regresso reparo que a continuação da gruta é para baixo, num túnel em “cotovelo”, com uma inclinação acentuada e consequentemente com um aumento de profundidade brusco. A curiosidade é muita mas desta vez estava na hora de sair.

 

            Nesse primeiro ano ainda fiz mais 3 mergulhos, sempre na companhia do João, até que o nível da água no poço começou a baixar, impedindo-nos de continuar a mergulhar. Foi um ano de aprendizagem e habituação ao ambiente espeleológico subaquático, com outros mergulhos feitos em grutas mais complexas, embora esta fosse a que mais me despertasse a curiosidade.

 

            Em 1997 choveu relativamente pouco mas mesmo assim a Pena tornou a encher, permitindo-nos fazer mais dois mergulhos. Desta vez já tinha fato seco, a minha asa e iluminações. Um luxo! Depois de um primeiro mergulho de ambientação, voltamos à Galeria Pressurizada (já baptizada) com intenções de prosseguir pela rampa “descoberta” no ano anterior, desta vez com a companhia do Carlos Gomes, um membro da equipa, também em aprendizagem. Nesse dia havia sedimento em suspensão na água, tornando a visibilidade mais reduzida, e também alguma corrente. Uma vez no início da rampa avançamos uns 30m e logo atingimos os 21m de profundidade. Naquele local a altura da gruta é de apenas 1 metro e esse estrangulamento faz com que a água se desloque com mais rapidez, tornando a progressão muito difícil quando o caudal está elevado. Foi o que aconteceu nesse mergulho, impedindo-nos de prosseguir. O caminho de regresso foi relaxante uma vez que não precisámos de mexer as barbatanas, bastando deixarmo-nos levar pela correnteza. Naquele ano ficaríamos por ali.

 

            O ano seguinte proporcionou à equipa importantes progressos. Logo no primeiro mergulho, eu e o Carlos conseguimos finalmente avançar pela rampa e acrescentar mais 25m de fio, atingindo os 34m de profundidade. Nos dois mergulhos seguintes, já com a liderança do João, avançámos outros 100m. A profundidade média ronda os 30m e a galeria desenvolve-se novamente num túnel circular de aproximadamente 5m de diâmetro, praticamente liso e de tom amarelado. Para nossa surpresa encontrámos tubos de plástico, fios eléctricos e lâmpadas a flutuarem no tecto. Tinham sido abandonadas após os trabalhos de bombagem do sifão pelos espeleólogos que, vindo da Gruta dos Moinhos Velhos, fizeram a ligação à Gruta da Pena, cerca de 20 anos antes. No fim do terceiro mergulho, a 355m da entrada, deparámos com uma bifurcação: a galeria principal prosseguia para Oeste e outra galeria, mais pequena, desenvolvia-se para Norte. Esta última era imaculadamente branca, o que contrastava em absoluto com o amarelo-torrado da galeria principal. Neste ponto chegámos também ao limite do gás disponível nas nossas garrafas principais. Se quiséssemos avançar mais teríamos que começar a levar garrafas extras e a deixá-las pelo caminho. Mais, devido à profundidade, os mergulhos já estavam a incorrer em patamares de descompressão, o que obrigava a um planeamento mais elaborado. A “exploração subaquática” da Gruta da Pena começava a complicar-se.

 

            Munidos de uma garrafa extra (stage) de 7 litros cada um e apoiados por mim e pelo Pedro Ivo, coube ao João e ao Carlos a tarefa de continuar a avançar pela galeria principal. Ao fim de uns 50m de colocação de fio, deparam com uma parede de tijolos a obstruir o caminho e param. Aparentemente esta foi ali colocada para que se formasse artificialmente um lago na parte turística da Gruta de Moinhos Velhos. A progressão naquela galeria parava por ali e aquele mergulho também. Faltava agora avançar pela Galeria Branca.

 

            No mergulho seguinte era a minha vez de integrar a equipa de ponta, juntamente com o Carlos. O apoio cabia ao João Goulão e ao António Pata. Além do bi de 15 litros e da stage de 7 litros, levámos também uma pony de 3 litros que deixámos no fundo do poço inicial e que seria usada na descompressão. Chegámos à Galeria Branca em pouco mais de 20 minutos, depois de termos deixado a stage junto à Galeria Pressurizada, e começámos a colocar fio. As paredes eram realmente de um branco imaculado, reflectindo facilmente toda a potência das nossas iluminações e enchendo aquele espaço de uma luminosidade surpreendente. Progredimos até o fio do carreto terminar, cerca de 50m, em perfeito êxtase. O túnel tornara-se mais pequeno, com 1,5m de diâmetro, e a profundidade era cada vez menor, começando nos 31m e chegando aos 21m na nossa última amarração do fio. Com 2/3 do gás restante nas nossas garrafas principais e com a adrenalina ao rubro, começámos o caminho de regresso em direcção à saída, já a 405m de distância. Mas desta vez esperava-nos um pequeno contratempo. Na descida para a secção da galeria que atinge os 34m de profundidade, sensivelmente a 250m da saída, o Carlos não consegue compensar um ouvido! É uma situação muito complicada pois não há outra forma de sair da gruta sem voltar a descer; não conseguindo compensar só restava forçar uma ruptura do tímpano ou não sair de todo! A escolha é óbvia mas dolorosa.... No entanto, após alguns angustiantes minutos, o equilíbrio é conseguido e o Carlos faz-me sinal para continuar. Ficou o susto e uma situação para meditar.

           

No último mergulho daquele ano ainda se acrescentou mais 30m de fio, num mergulho com a duração 1 hora e 45 minutos, onde o João Neves seguiu à frente com uma pequena scooter subaquática e eu e o Carlos (com 2 stages cada um) à força da bela barbatana, no seu encalço! O Pedro Ivo e o Manuel Carvalho foram a equipa de apoio.

           

Em 1999 a chuva não chegou para encher a Pena e só em 2000 tornámos a mergulhar, desta vez, no entanto, com alterações importantes na equipa. O Carlos e o João tinham-se afastado, por razões pessoais, e a Maria João entrou em pleno, integrando a equipa de ponta logo após 3 mergulhos de ambientação. Houve duas tentativas de acrescentar mais fio ao limite de 1998 mas sem sucesso. A primeira foi num mergulho a solo, onde fui atrasado pela necessidade de reparar alguns troços de fio que se tinha deteriorado e pelo meu consumo excessivo de gás, causado pelo ritmo demasiado acelerado que imprimi na progressão. Nesse mergulho fui apoiado pela Maria João e pelo Manuel que ficaram na Galeria Pressurizada à minha espera.

 

A segunda tentativa foi, digamos, algo marcante. Para começar não havia ninguém disponível para constituir a equipa de apoio, o Manuel Soares e o Manuel Carvalho apenas puderam ajudar a transportar o equipamento do carro para a entrada do poço e não podiam ficar para mergulhar nem para retirar o equipamento de volta ao carro. E desta vez o plano implicava levar mais garrafas ainda: 2x15 litros, 2 stages de 10 litros e 1 pony 3 litros para mim e o mesmo para a Maria João.

 

 Mesmo sem apoio decidimos ir para a frente com o mergulho, e às 14:57h iniciámos a imersão. Nadar com aquele peso todo não se revelou mesmo nada fácil e só depois de largamos as duas garrafas de 10 litros (de aço) pelo caminho, em locais pré-programados, conseguimos recuperar um pouco o fôlego. Chegados à Galeria Branca, e para nosso desânimo, encontramos o fio novamente partido, forçando-nos a perder tempo e gás preciosos para poder repará-lo. Ainda assim conseguimos alcançar o limite de 1998 mas os manómetros mostravam que estávamos no fim das nossas reservas. Foi um momento algo frustrante, depois de tanto trabalho e esforço não conseguir avançar na “exploração”. Mas enquanto regressávamos esse sentimento foi dando lugar à incrível sensação de estarmos os dois sozinhos, quase ½ Km dentro de uma gruta submersa, onde muito pouca gente tinha chegado em mergulho até então. Ás 16:47h, emergimos novamente na superfície do poço, cansados mas satisfeitos. Apesar de tudo o mergulho tinha corrido bem. Mas agora faltava o pior: quase 200Kg de equipamento, incluindo 10 garrafas, 10 reguladores, iluminações, asas, cintos de chumbo, etc., tinham de ser transportados por 100m de terreno inclinado até à bagageira do nosso jipe! E só estávamos lá nós para o serviço!...

 

Em 2001 e 2002, apesar de eu e a Maria João termos feito alguns mergulhos na Pena, não se proporcionou organizar nenhuma tentativa de avançar na “exploração”. A logística necessária para executar tais mergulhos tinha-se tornado algo complexa e sem a ajuda de uma equipa capaz de nos apoiar, seria muito difícil progredir em circuito aberto. No entanto, aproveitámos estes anos para treinar o uso das scooters subaquáticas e estudar novos planos. A partir desta altura passaríamos também a ter a companhia de uma equipa de mergulhadores com Rebreathers, que faziam os seus primeiros mergulhos naquela gruta.

 

Em 2003 iniciei o ano com um mergulho de ponta a solo. Munido de 3 stages (2x10 litros e 1x7 litros) e de uma scooter o plano era avançar sozinho até ao limite de 1998, tentar avançar e regressar até à Galeria Branca, onde encontraria a Maria João com a segunda scooter para me dar apoio. Se a minha scooter falhasse estava combinado que pegaria na dela e continuaria rumo à saída, enquanto a Maria João, com mais gás, regressaria a nadar. Na Galeria Pressurizada ambos contaríamos com o apoio da Susana Catita e do Armando Ribeiro. Paralelamente à minha tentativa, a equipa dos Rebreathers, tentaria chegar ao mesmo objectivo.

 

Partindo antes de mim, conseguiram efectivamente avançar mais alguns metros na exploração, finalmente ultrapassando o limite por nós atingido fazia já 5 anos. Enquanto eles regressavam, cruzamo-nos a cerca de 350m de penetração e trocamos impressões na placa de escrita. Ao saber do avanço, achei que não conseguiria acrescentar mais fio e decidi investigar uma outra galeria que me intrigava há alguns anos e que poderia constituir um atalho no caminho para a ponta da “exploração”. E assim fiz, descobrindo realmente uma galeria paralela à que até então sempre tínhamos percorrido e que abreviava alguns metros ao percurso. No regresso e como combinado, encontrei a Maria João à entrada da Galeria Branca. Tudo estava bem com as duas scooters e por isso regressámos os dois numa corrida subaquática de “alta velocidade”. Foi muito divertido, especialmente no momento em que o acelerador da minha scooter resolveu ficar preso na velocidade máxima, obrigando-me a percorrer os últimos metros da gruta sem poder abrandar nas curvas! Quem disse que o mergulho em gruta não era uma actividade radical!?

 

No final daquele ano, depois de mais alguns mergulhos, ambas as equipas atingiriam os 550m de penetração, chegando a uma zona demasiado estreita para se conseguir passar com as garrafas ou com os Rebreathers. O nosso último mergulho foi o culminar de um esforço de vários anos, onde só a experiência acumulada, um bom planeamento e alguma ousadia permitiram que eu e a Maria João, novamente sozinhos e sem apoio, conseguíssemos percorrer os 1100m da Gruta da Pena, carregados com 4 stages cada um, sem scooters e utilizando o circuito aberto. Foram 2 horas de mergulho inesquecíveis!

 

Possivelmente este será o fim da “exploração subaquática” da Pena, a menos que se consiga progredir com as garrafas em “side-mount”, o que não será tarefa fácil. Ficam evidentes também as limitações do circuito aberto, em detrimento dos Rebreathers, provando mais uma vez que estes representarão o futuro do Mergulho Técnico.

 

Estes 10 anos de mergulhos na Pena foram, antes de mais, um bom treino, numa gruta relativamente fácil, sem grandes restrições, boa visibilidade e profundidades acessíveis. E claro, foram também 10 anos de puro gozo!

 

Pedro Lage in Planeta d'Agua - Julho 06

Foto: Armando Ribeiro
Topo: Groutes et Algares du Portugal - Christian Thomas et all

 

 

Nota: A entrada da Gruta da Pena encontra-se gradeada por razões de segurança, só podendo ser visitada por espeleólogos credenciados.

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