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O Barco das Telhas
Mergulho técnico
Corria o séc. XVIII (ou talvez fosse o XVII ?) e D. Lage, importante conselheiro da corte portuguesa, mostrava-se deveras irritado com o atraso da construção da sua luxuosa mansão. O mesmo se passava com D. Moreira, dono de uma próspera fábrica de produtos artesanais, que ansiava por ver concluído o seu novo e grandioso armazém. O problema, afirmavam os construtores desesperados, era a falta de materiais de construção, principalmente de telhas e tijolos. Estes materiais eram fabricados em modernas olarias, situadas na zona de Tróia, perto de Setúbal, e depois transportados via marítima para diversos pontos do país. Acontece que um desses navios tinha naufragado enquanto navegava nas costas da Arrábida, durante uma violenta tempestade, perdendo-se toda a carga. As obras teriam de esperar por outro carregamento.

Séculos depois, no ano de 2004, Pedro Lage (desta vez o nome é verdadeiro!), ávido mergulhador e instrutor de mergulho técnico, procurava afincadamente novos locais de imersão, preferencialmente em profundidades abaixo dos 40m. Outro requisito importante era que se encontrassem numa zona protegida da predominante ondulação vinda do quadrante norte, tão característica da costa ocidental portuguesa.

Certo dia, em conversa com um pescador, surgiu a informação da existência de uma zona ao largo da baía de Sesimbra que tinha grandes blocos de rocha, ou penedos, e onde a profundidade aumentava rapidamente em pouca distância, sugerindo a existência de abruptas paredes. Sem marcas GPS, as indicações sobre a sua localização não foram muito precisas, limitando-se apenas a enfiamentos pouco claros e a profundidades aproximadas. A partir desse momento tinha início a caça aos “Penedos”!

 

Entusiasmado com a possibilidade de explorar um local com aquelas características e que possivelmente nunca tinha sido visitado antes, não demorou muito para que se organizasse uma saída de mergulho para aquela zona. Foi aí que começaram as dificuldades.  Sem barco próprio, seria necessário contratar um barco de um centro de mergulho, mas poucos eram os centros que mostravam interesse em fazer saídas de mergulho técnico, dado o reduzido número de participantes. Quando se conseguia reunir o mínimo de pessoas para efectuar uma saída, os barcos geralmente não estavam equipados com sondas nem GPS. Por outras palavras, achar os benditos “Penedos” não ia ser tarefa fácil.

 

As primeiras tentativas basearam-se simplesmente nos enfiamentos fornecidos, sem recurso a sondas, e resultaram sempre em mergulhos na areia entre os 50m e os 66m. A escuridão quase total e o reduzido tempo de fundo, 20 a 25 minutos, apenas permitiam que se pesquisasse uma pequena área ao redor do local onde a poita caía, fazendo com que fossem necessários muitos mergulhos para explorar minimamente uma determinada zona. E assim se passaram muitos fins-de-semana, constantemente a mergulhar nas “imediações” dos “Penedos”.

 

No ano seguinte, graças ao António Moreira (outro ávido mergulhador técnico) e ao seu barco particular, muito bem equipado com sonda e GPS, as buscas finalmente deram resultados práticos e conseguiu-se “mapear” uma grande área da Baía de Sesimbra. A zona dos “Penedos” era caracterizada por um fundo rochoso bastante irregular, variando entre os 50m e os 90m, havendo locais onde a profundidade cai dos 62m para os 75m numa nítida parede vertical. Nesse dia mal podíamos esperar para entrar na água!

 

No entanto, outro tipo de problemas ainda estava para surgir. O primeiro deles foi tão simplesmente conseguir fundear o barco junto ao topo da parede. O que frequentemente acontecia, era que a força das correntes marítimas e do vento, faziam com que a poita fosse arrastada para fora e rapidamente ficasse pendurada no “azul”. Alguns dos mergulhos iniciais acabaram por deixar os mergulhadores tal qual isco num anzol! A solução encontrada foi não fundear o barco e deixar apenas um cabo de descida preso a uma bóia, aliviando assim a poita. O segundo problema foi o facto da zona estar exposta a correntes de maré, tão fortes que acabavam por tornar muitos dos mergulhos quase impraticáveis. A solução foi procurar mergulhar no estofo da maré. O problema seguinte tinha a ver com a escuridão total e a má visibilidade com que por vezes os mergulhadores se deparavam a partir dos 40m, dificultando uma visão geral da zona de mergulho e impedindo uma percepção tridimensional da mesma. Para este problema ainda não foi encontrada uma solução (e obviamente nunca será!), pelo que ainda hoje é difícil caracterizar com exactidão grande parte dos locais visitados.

 

No decorrer dos anos seguintes, dezenas de mergulhos foram sendo efectuados na zona, que para além de ser geologicamente muito interessante, também possui fauna e flora muito característica. Desde enormes ramos de colorido coral duro a peixes alaranjados e de barbatanas longas, as Antheas, muitas espécies “estranhas” podem ser encontradas nestes verdadeiros oásis profundos. Até ao momento a zona foi explorada até a uma profundidade de 90 metros, onde o fundo rochoso torna a dar lugar ao lodo e à areia.

 

Mas toda esta história serve apenas de preâmbulo para se enquadrar outro tema: O Barco das Telhas.

 

De facto, foi durante esta odisseia de exploração da zona dos Penedos que um belo dia, num mergulho a cerca de 57 metros, deparámos com um monte de telhas semi-soterradas entre dois corredores de rocha. Aparentavam estar submersas há algum tempo, pois grande variedade de vida marinha já se tinha encarregue de as envolver. Por outro lado, a sua quantidade e a forma como estavam empilhadas, indicava que o conjunto teria vindo da superfície em “bloco”, em oposição a terem simplesmente caído individualmente de algum navio. Este pormenor imediatamente levantou a suspeita de estarmos perante um naufrágio!

Logo nesse dia comentámos a descoberta a João Neves, que para além de também ser mergulhador e instrutor de mergulho técnico, tinha também relações próximas com o director do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática. Entusiasmado com as nossas descrições, sugeriu que declarássemos o achado e que recolhêssemos umas telhas para análise.

No fim-de-semana seguinte todos estavam desejosos de mergulhar no local e cumprir a missão de recolha. Infelizmente os contratempos não se fizeram esperar. As marcas GPS tiradas no mergulho anterior não marcavam o ponto exacto do aglomerado de telhas mas sim do local onde tinha ficado a bóia de amarração. Este pormenor podia significar que o “alvo”, de apenas 50m2, podia estar algures numa área circular de cerca de 300 metros de diâmetro, o que aliado à profundidade e à má visibilidade, tornaria a tarefa de re-localização num novo desafio. Nesse mergulho apenas encontraríamos algumas telhas dispersas, que prontamente foram recolhidas e trazidas para a superfície.

 

Uma vez declarado o local e entregues as telhas, os mergulhos prosseguiram durante vários meses tendo como principal finalidade a marcação das coordenadas exactas da vertical do aglomerado de telhas. Depois disso conseguido tornou-se muito mais fácil explorar a tão misteriosa carga no reduzido tempo de fundo que um mergulho a 57m impunha. Descobriram-se pequenos tijolos, possivelmente utilizados como soalho, e para delírio da equipa, também foram detectadas algumas balas de canhão em pedra, do tamanho de punhos.

 

Este último achado também entusiasmou os arqueólogos do CNANS, que começaram a dar mais importância ao local, levantando-se a hipótese de se fazer um estudo mais aprofundado do caso. E foi isso que veio a acontecer em Outubro de 2007, aproveitando um projecto financiado pela União Europeia, de nome VENUS (Virtual ExploratioN of Underwater Sites).

 

O projecto destinava-se a estudar locais arqueológicos em águas profundas, utilizando um ROV para recolha de dados e imagens. O objectivo era elaborar um registo a 3 dimensões para posterior visualização e análise por parte de arqueólogos e do público em geral. A missão “Barco das Telhas” teve a colaboração de entidades como o Instituto Superior Técnico, a COMMEX e várias universidades e institutos europeus. Apesar de algumas dificuldades iniciais, os resultados foram satisfatórios e os objectivos cumpridos, não se tendo chegado, no entanto, a conclusões definitivas sobre a datação e origem do achado. São necessárias mais evidências para se conseguir decifrar esses dados.

 

Assim, resta à equipa continuar a mergulhar e tentar recolher mais objectos que possam fornecer informações adicionais, facto que apenas nos fornece um bom pretexto para dar continuação à diversão e ao convívio entre mergulhadores técnicos!
 
In revista Planeta D'Água - Julho/Agosto 08
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