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Tão Certo Como Respirar!
Mergulho técnico
Não restam dúvidas, eles estão aí e são cada vez mais. São caros, atraentes, silenciosos e finalmente legais em Portugal. Falo obviamente dos Circuitos Fechados ou Closed Circuit Rebreathers (CCR).

Se ainda não reparou, fique a saber que já existe um número considerável de mergulhadores nacionais a divertirem-se com estes brinquedos, e que apesar de já não disfrutarem daquele excitante fluxo de adrenalina quando tinham de “fugir” à Policia Marítima Portuguesa, ainda dizem alto e bom som que o circuito aberto é coisa do passado!

 

A restante comunidade de mergulho, ou seja, os recentemente apelidados de “bolhosos” (sem ofensa!), olham ainda desconfiados para estas máquinas repletas de componentes electrónicos e de funcionamento aparentemente complexo. E à primeira vista até parece que têm alguma razão. Todos sabemos que a electrónica e a àgua nunca combinaram muito bem e se até uma simples lanterna irá eventualmente avariar debaixo de àgua, o que se esperará de uma máquina composta por uma miríade de placas e circuitos electrónicos, que por acaso até servem para controlar a mistura gasosa que respiramos!? De facto, não parece ser uma boa ideia, certo?

 

Errado! A verdade é que um Circuito Fechado controlado electronicamente é uma ideia genial! ...a parte chata é só mesmo a àgua! ...ah, e a electrónica também!

 

Mas, mas.... ??? Vá lá, sejamos realistas, é óbvio que pensar que uma máquina destas não irá um dia ter uma falha é pura utopia. A parte boa da coisa é que se o Rebreather fôr bem concebido, a avaria de um componente geralmente não implica a falha total do sistema, permitindo continuar a respirar até chegar à superficie.

 

Para tentar demonstrar esta afirmação convém primeiro relembrar o modo de funcionamento de um CCR electrónico:

 

Começando pelos componentes de um CCR, que são: 1 garrafa com ar ou trimix, apelidados de diluente, e 1 garrafa com oxigénio puro com os respectivos reguladores (normais), os sacos pulmão e as traqueias, o recipiente com absorvente de CO2, as células de análise de O2, uma válvula electromecânica (solenoide) e o controlador (computador). O funcionamento é então muito simples: O mergulhador define no controlador qual a Pressão Parcial de oxigénio (PO2) que pretende manter durante o mergulho, normalmente 1.4bar ou 1.3bar; ao respirar dentro do circuito as células de O2 medem qual a PO2 existente e se esta fôr inferior ao valor definido, o controlador ordena à válvula solenóide que injecte mais oxigénio, até se aproximar do pretendido; entretanto o CO2 é retirado do circuito pelo absorvente. O diluente apenas é utilizado para “diluir” esse oxigénio e só é injectado quando é necessário compensar o volume de gás existente no circuito, normalmente só durante a descida. Como este processo é constante durante o mergulho, o controlador está constantemente a fabricar um nitrox ideal para aquela profundidade, ou seja, sempre com uma PO2 de 1.4bar ou 1.3bar, o que vai minimizar a absorção de gases inertes (azoto ou hélio) e daí optimizar tempos de fundo e de descompressão. É o equivalente a levarmos uma estação de enchimento nitrox às costas, com técnico de misturas e tudo!

 

E é assim que tudo acontece em 99% dos mergulhos! Quando nos calha o dia do 1%, é que as coisas se animam!

 

            Nesse dia, como em todos os outros, o utilizador do CCR vai começar por executar uma série de testes que confirmam a correcta operacionalidade dos componentes da sua máquina. Se algum deles acusar uma falha, ele nem chegará a entrar na àgua e o caso fica por aqui. Se o sistema passou neste despiste inicial, é porque naquele momento tudo está a funcionar correctamente e o mergulho pode começar.

 

Vamos então descer para as profundezas e começar a avariar o nosso querido Rebreather (neste caso um modelo em particular), componente por componente:

 

Falha nº1 – O controlador que comanda a injecção de oxigénio avaria.

Solução: Existem 2 controladores! Quando um avaria o outro assume automaticamente o controlo da operação.

 

Falha nº2 – Uma das células que lê a PO2 avaria.

Solução: Existem 3 células! As outras 2 são suficientes para o sistema continuar a funcionar.

 

Falha nº3 – Duas das células que lêem a PO2 avariam.

Solução: Sabia que o CCR tem 3 células?! A restante é suficiente para operar o sistema até à superficie. (nota: não vale a pena jogar no euromilhões neste dia...)

 

Falha nº4 – A válvula solenóide que injecta o oxigénio no circuito não abre.

Solução: Basta controlar manualmente a adição do Oxigénio através de um botão injector, situado no saco-pulmão.

 

Falha nº5 – A válvula solenóide que injecta o oxigénio no circuito não fecha.

Solução: Fechar a torneira da garrafa de O2 e controlar manualmente a adição de oxigénio, abrindo e fechando a mesma.

 

Falha nº6 – A bateria que alimenta a electrónica fica sem potência.

Solução: Existem 2 baterias! A outra assume o controlo automaticamente.

 

Estas são as seis falhas mais comuns que os mergulhadores de CCR podem ter de lidar nos seus mergulhos “azarados”. Mas vamos mais longe e vamos abordar falhas menos comuns mas mais graves, como por exemplo: Ambos os controladores falham, as 3 células falham ou as 2 baterias falham, o que basicamente significa a falha total da electrónica.

Bem, primeiro esqueça lá o euromilhões! Com essa sorte, seria o equivalente a deitar dinheiro à rua! Depois, pode optar por “transformar” o CCR num Circuito Semi-Fechado (SCR). Como? Simples, injectamos apenas o diluente (ar) no sistema e respiramos por 4 vezes, na 5ª vez expiramos para fora do circuito (pelo nariz) e tornamos a injectar diluente repetindo o ciclo respiratório. Com este método sabemos que estamos a respirar uma mistura em que a PO2 nunca atinge valores hiperóxicos (excesso de oxigénio) e não desce a valores hipóxicos (com oxigénio insuficente), pois é renovado muito antes disso acontecer. Claro que está na hora de abortar o mergulho, mas é possivel continuar a utilizar o Rebreather até à superficie em segurança (em mergulhos sem patamares de descompressão obrigatórios).

 

Sendo assim, as únicas falhas que tornam o CCR inoperacional são as que estão relacionadas com o absorvente de CO2 ou a inundação massiva do circuito. Problemas com o absorvente de CO2 geralmente têm origem em falha humana, sendo o mais comum o excesso de utilização do mesmo, não cumprindo os limites de tempo que o fabricante recomenda. A inundação do circuito, pode ter origem em falha humana, deficiente montagem do CCR, por exemplo, ou em danos causados durante o mergulho, rompimento de um saco-pulmão ou traqueia, o que é extremamente raro.

 

Nestes casos a única opção é passar para uma fonte de ar alternativa, que normalmente é uma garrafa “deco” com o respectivo regulador. Dependendo do tipo de mergulho executado, a capacidade deste “bail-out” terá de ser ajustada por forma a garantir que o mergulhador consiga chegar à superficie em segurança.

 

            Concluindo, um bom CCR electrónico é uma máquina extremamente fiável, onde a maioria das eventuais  falhas não colocam o mergulhador em risco imediato e não implicam a inoperacionalidade total do sistema. É óbvio que o utilizador tem de possuir formação adequada, ser competente na forma como lida com a máquina e adquirir uma atitude correcta no planeamento dos mergulhos, especialmente nos mais exigentes. Mas uma vez isso assegurado, podemos até afirmar que um circuito fechado pode constituir um sistema mais seguro do que o circuito aberto, já que permite uma grande autonomia respiratória. È tão Certo Como Respirar!...

 

 Pedro Lage

 
In revista Planeta D’Àgua Nov/Dez 07
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